To our foreign visitors: Our site is in Portuguese. If you have any difficulty ordering, please contact us and we will help in everything we can.
  Blog

ZOMBO de Alberto Pimenta por Hugo Pinto Santos, no Suplemento Ípsilon (21/06/2019)

Escrito em 21 de Jun. de 2019

Já Quintiliano notava que há palavras, não só acções, que provocam o riso — ou funcionam como instrumentos de um derrisão mais ampla. Poderíamos dizer que o título do mais recente livro de Alberto Pimenta (AP) encarna esse princípio. O verbo “zombar”, nele utilizado, produz uma sonoridade que, a um tempo, provoca estranheza, sugere riso e motiva um alerta. Circunstâncias que a capa de Zombo exploram. Os tipos usados e um efeito de espelhamento e inversão permitem, rodando o livro num ângulo de 180 graus, ler o título sem quase o desfigurar. Qualquer coisa que nos deve, desde logo, deixar em estado de alerta e questionação — de resto, assim é em toda a actividade de escrita do poeta e ensaísta. O que se pretenderá com este livro? O que irão as suas palavras fazer?

[...]


Nada que passe em exclusivo pela troça, nem se imobilize no maldizer. Assim como faz com os modos da sua expressão escrita — para dar apenas exemplos recentes: a lírica, em Nove Fabulo, O Mea Vox — De Novo Falo, a Meia Voz (Pianola, 2016); a épica, em Pensar depois no Caminho (Edições do Saguão 2018) —, AP não conclui nada em Zombo. Neste sentido: não se fecham caminhos. Tal como o poder de Eros não tem fim nem começo, propôs Pimenta numa entrevista, também se poderia dizer que a poesia nunca se encerra, nem realmente começa. É um processo em aberto, um contínuo fluido, impossível de capturar — quanto mais domesticar. Daí que nada se possa esperar. Ou tudo se possa e deva esperar, quando é altura de ler um novo livro do autor.

[...]

Na escrita de AP, a fonte de alimentação, no caso, a informação cultural, é como a pólvora perante o perigo e a violência de uma explosão. Consumado o facto de uma detonação, queremos, realmente, saber quem descobriu a pólvora? Talvez antes, ou muito depois, a pergunta nos interesse. Assim mesmo, na escrita de Pimenta, é a explosão que nos está a ocupar, e a propagação do impacto. E só muito depois vamos recolher os vestígios e investigar a origem. Mesmo que tudo começasse (ou não) com Hammurabi.

[...]

Porque é de arriscar que se trata, de questionamento e de desassossego. Mesmo (ou sobretudo?) do que parece inquestionável, e até o merecia ser — “costume digamos antigo,/ e talvez dizendo antigo/ nem fosse preciso dizer costume/ mas como não estou certo/ nem digamos da antiguidade/ ne, dos costumar/ do costume/ — e quem é que está certo/ seja digamos até do que é antigo?” (p.84) É a própria linguagem, o discurso que assumimos, o que aqui se põe em causa. Não como exercício, mas como exigência. Não como teoria, mas como prática.

ler o artigo: https://www.publico.pt/2019/06/25/culturaipsilon/critica/sms-musas-salvassem-1876406


×