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Emily Dickinson, a deusa das pequenas coisas

Escrito em 26 de Set. de 2020

Emily Dickinson, a deusa das pequenas coisas

Transeunte anónima no século XIX, poeta genial descoberta no século XX. Entre os milhares de coisas que nos legou estão poemas escritos em envelopes velhos que a Saguão edita num livro artístico.

[...] Nas cartas que enviava, ou não assinava o seu nome ou assinava num cartão à parte. Como se essas missivas não lhe pertencessem, mas sim ao que chamava “uma pessoa suposta”, recusando e questionando, assim, toda a ideia de autoria e autoridade que hoje se tornou uma marca feita a ferro e fogo na pele do meio artístico: o nome próprio ostentado com foguetes. Também recusou sempre publicar os poemas que escrevia. Apenas 10 foram publicados em jornais. Mas, depois da sua morte, a irmã, Lavinia, encontraria, numa caixa fechada, cerca mil e oitocentos poemas, uns terminados, outros em rascunho.

Nesses muitos papéis estava mais uma das suas curiosidades: um conjunto de breves poemas escritos em envelopes usados, que ela, numa parcimónia típica dos puritanos, reutilizava na parte em branco. São estes poemas que a Edições do Saguão acaba de lançar pela primeira vez em língua portuguesa. Poemas Envelope (edição bilingue) é uma pequena preciosidade ali entre a literatura e a arte, pois o livros não contêm apenas os poemas tardios de Dickinson, mas também imagens fac-similadas dos envelopes originais escritos a lápis de carvão, pelo punho da poeta, numa letra instável. Nestes envelopes encontram-se ainda vestígios das suas dúvidas, das hipóteses que deixa em aberto em palavras anotadas por cima de outras palavras, frases escritas lateralmente criando ainda mais ambiguidade numa poesia já tão ambígua.

[...]

Esta edição resulta de um longo trabalho que investigadores americanos fizeram sobre o que era considerado ‘refugo’, compilando e e estudando estes envelopes rasgados de Emily Dickinson.

O livro que publicámos, Poemas Envelope, é a tradução da antologia Envelope Poems publicada pela New Directions, uma versão de pequeno e acessível formato [...] feita a partir a partir da edição [...] The Gorgeous Nothings, para a qual a New Directions se associou à galeria Christine Burgin para fazer a edição integral dos envelopes da Emily Dicknson. a partir do trabalho de Jen Bervin e Marta Werner, com o contributo da poeta Susan Howe. O objectivo era transcrever estes envelopes da forma mais fiel possível, pois os estudos feitos mostram que a forma e o conteúdo dos poemas está ligado à forma do envelope. Essa arrumação está fielmente representada no grafismo do livro”.

Com tradução feita pelo poeta Rui Pires Cabral e Mariana Pinto dos Santos e revisão de Jeffrey Childs, a pequena obra reúne poemas  escritos, na sua maioria, entre 1870 e 1885. A investigadora Susan Howe classificou como “conexões sem conector” estes poemas tardios de Dickinson, cada vez mais radicais, comoventes e dirigidos a ninguém.

Joana Emídio Marques, jornal Observador, 26 Setembro, 2020

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