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POEMAS ENVELOPE de EMILY DICKINSON na REVISTA BROTÉRIA de JANEIRO DE 2021

Escrito em 09 de Fev. de 2021

POEMAS ENVELOPE de EMILY DICKINSON na REVISTA BROTÉRIA de JANEIRO DE 2021

Porquê e para que escreve um escritor? Muitos fá-lo-ão para serem publicados, outros para tentarem sê-lo, outros ainda para dar corpo ao canto latente das revoltas, capazes de inflamar corações e almas através do golpe afiado das palavras que lançam ao Mundo. Nenhuma destas foi a motivação de Emily Dickinson, primeira filha de uma família puritana e senhora de uma vida tão isolada do mundo como a vila de Amherst onde nasceu em 1830, na região do Massachusetts.


O que levou então aquela que, hoje, é considerada uma das mais proeminentes poetas de língua inglesa a produzir incansável e laboriosamente mil e oitocentos poemas para, em vida, publicar apenas dez? Terá sido a convicção que «Uma nota de/Um Pássaro/Vale mais do que/um milhão de palavras» (p.50), ou que «Assim como há/Quartos na nossa/Mente onde –/nunca entramos/sem pedir Desculpa –/Devemos também respeitar/o recato dos/outros»? (p.93)
Não saberemos nunca as motivações da mulher que, aos 30 anos, decidiu vestir-se perenemente de branco e isolar-se no seu quarto, em casa dos pais. Não que se esperasse que, na América puritana de 1860, uma mulher tivesse um caráter declaradamente rebelde, mas Dickinson espanta pela pureza, pela espontaneidade e pela fragilidade com que confessa a pedaços de papel os medos, as fraquezas, as dúvidas, mas também as forças e as pequenas maravilhas que observa na Natureza. A procura de algo que transcenda as paredes do quarto que a rodeiam e, simultaneamente, faça caber o mundo inteiro dentro delas, é uma constante nas linhas que escreve, por vezes em forma de simples anotações.


Descobrir Emily Dickinson através da seleção de Poemas Envelope é um exercício que desperta os cinco sentidos, que abre uma janela para a Criação a partir das abas de envelopes de papel. Como podemos ler na nota introdutória, «os fragmentos reunidos no presente volume foram escolhidos entre os textos que compõem a recolha integral dos poemas de envelope de Emily Dickinson, The Gorgeous Nothings». Ao longo das páginas, o leitor encontra fotografias dos envelopes originais, além de fac-símiles que permitem perceber o modo exato e parcimonioso com que Dickinson dispôs as palavras e as emoções em cada um deles. As edições do Saguão mantiveram ainda a versão original de cada poema, enriquecendo de sobremaneira a leitura. Significante e significado unem-se sob o signo que é a matéria de cada poema, que suplica ao mundo que abrande e sussurra, «Nesta fugaz Existência/que dura apenas uma hora/somente/Quanto – quão/pouco –/ podemos» (p.33).

– Mariana Almeida Nogueira, Revista Brotéria, Janeiro 2021

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